Resumo
O artigo apresenta duas linhas de pensamento, desde as quais se cogitam alguns postulados relacionados com a legitimidade da pesquisa qualitativa, em relação com assuntos como a validade como caminho para ganhar tal legitimidade. No texto toma-se posição pela pesquisa, fundamentalmente, como uma atividade de produção discursiva, que se rege pela argumentação como a via para garantir sua legitimidade. Acudindo, principalmente, a propostas chave de Roland Barthes, Jesús Ibáñez e Irene Vasilachis, se esboça uma perspectiva epistemológica que se insere no debate atual sobre a pesquisa qualitativa nas ciências sociais.
Palavras-chave
Epistemologia, pesquisa de segunda ordem, legitimidade da pesquisa, objetividade, formação discursiva.
Palavras-chave
descritor
Pesquisa Qualitativa, Teoria do Conhecimento, Teoria da informação nas ciências sociais.
Transferência à prática
As concepções, se bem correspondem a reflexões de ordem epistemológica, podem contribuir a repensar as atividades de pesquisas em estudantes de graduação e pós-graduação que enfrentam a problemática relacionada com a construção de seus problemas e objetos de pesquisa.
Na pesquisa empírica, o que costumamos chamar data são na realidade capta: pois são selecionados arbitrariamente, já que a forma dos dados depende do marco de referência, e o marco de referência é função das distinções e indicações do pesquisador.
Jesús Ibáñez (1998, p. 24)
A verdade é que só Deus pode dizer aos humanos infalíveis a ‘verdadeira’ natureza da realidade.
Strauss & Corbin (2002, p. 5)
Introdução
Para a ciência positiva, dizia Barthes (1987), a linguagem é o meio para dizer suas mensagens. Essas mensagens, diria a ciência, estão fora da linguagem, pois sua preocupação principal são os fatos, não as palavras que dão conta desses fatos. Por seu lado, e na contramão, a essência da literatura é a linguagem, as palavras, não os fatos, pois “a linguagem é o ser da literatura” (Barthes, 1987, p. 15). As formas de dizer são seu campo de trabalho, essa é sua verdadeira preocupação, não o referente ao dito: a mensagem, o conteúdo, a realidade pesquisada, os resultados.
Por isso, e desde esse marco, a ciência, insistamos, a ciência positiva, não está dentro da linguagem, diria Barthes (1987), pois a ciência é o que se diz: o fenômeno estudado. Por outro lado, se a essência da literatura é a linguagem, sua pergunta central será como se diz, e sua preocupação principal será a escritura, o texto. Quem pesquisa, e em geral quem tenta escrever, tem claro: a escritura é trabalho, é batalha, é luta com os significantes (Zuleta, 1994), pois a escritura é uma força, ou melhor, um campo de forças: no texto falam múltiplas vozes que nem sempre identificamos, que nem sempre controlamos, e essas vozes falam de uns modos particulares. Somos falados em nossos textos. No texto respiram, também o sabemos, as vozes que foram silenciadas pelo modo de produzir nosso texto.
Desde este ângulo, o texto, o artigo de pesquisa, o relatório, diríamos em nossa gíria, poderiam ver-se como esse campo de forças, como as marcas que dão conta dessa luta com as palavras, com os dados, pois a escritura contém as pegadas de uma prática, em nosso caso, a prática investigativa. É neste sentido, talvez, que Irene Vasilachis (2007) propõe, na sua discussão sobre os pressupostos da pesquisa qualitativa –discussão que a levou a propor uma epistemologia do sujeito conhecido– que é melhor falar de reflexão epistemológica, que de epistemologia, como elemento chave da atividade do pesquisador, elemento que opera como uma espécie de alerta intelectual para mostrar a ingenuidade, as ingenuidades.
Na perspectiva de construir um ponto de vista sobre a pesquisa, especificamente sobre a pesquisa de tipo qualitativo em ciências sociais, desde um horizonte não positivista, estas linhas de pensamento são muito sugestivas, se invertemos a ordem dos vetores, tal como esboçamos. Em primeiro lugar, porque a pesquisa poderia conceber-se, além dos seus resultados e dos fatos que tenta descrever, explicar ou provar, como um modo de dizer, como uma linguagem. Em segundo lugar, porque a petição de rigorosidade, desde esta perspectiva, deverá procurar-se dentro do sistema de palavras, sistema conceitual o corpo de categorias empregadas para falar de pesquisa. Seu sentido, seus sentidos, talvez possam encontrar-se se analisamos esse modo particular de falar, esse texto; ou seja, não podemos procurá-los só nos fatos dos que supostamente dão conta essas palavras, nem em seus resultados. Neste sentido, a legitimidade da pesquisa, essa procura do reconhecimento na comunidade acadêmica e na sociedade, em geral, não poderá procurar-se, unicamente, em seus resultados nem em sua aplicabilidade nem em sua transferibilidade nem em sua incidência no mundo da vida ou nas decisões de política. Lembremos que a história não se cansa de mostrar-nos a complexidade que ronda essa diversidade, incontrolável, de usos dos resultados de pesquisa, que dificilmente o pesquisador consegue calcular e a dimensionar e que em muitas ocasiões deslegitimam a pesquisa.
Mas, o que ocorre se consideramos a ciência, a pesquisa social, como um modo de falar, fato de por si curioso, pois a estaríamos aproximando à literatura; sua solidez, seu valor, sua legitimidade, seu status, sua validade, se cabe a palavra, deverão procurar-se na consistência interna desse modo particular de falar, e não na concordância entre esse modo de falar e os fatos que nomeia, que diz nomear, que quer nomear ou que diz reapresentar. Devemos procurar esse valor no modo como os enunciados que falam de ‑e em‑ pesquisa foram escolhidos, organizados, produzidos. Esta óptica obrigaria a perguntar-nos, além daquilo que o texto quer nomear, pelas condições em que os enunciados foram produzidos: do lado de quem se situam esses enunciados? Pois nunca serão neutros, que vozes falam por meio deles? Que vozes foram silenciadas, excluídas? O que ficou nos interstícios, nas rupturas, nas descontinuidades, que nunca faltam, que dificilmente se deixam ocultar?
A impossibilidade da reapresentação
Na tradição positivista e pós-positivista, inclusive em certo tipo de estudos qualitativos contemporâneos, a legitimidade costuma-se procurar, pelo menos em parte, acudindo à validade, mas o problema da validade na pesquisa em ciências sociais continua sem resolver-se. A ciência positiva postula a validade, pelo menos em parte, desde a relação entre os resultados, as explicações, descrições ou hipóteses, e a realidade, situação, fato ou fenômeno do que tais explicações se encarregam. O grande problema nesta idéia de ciência, se seguimos a Barthes, residiria em que segue postulando-se um afora da linguagem, uma dicotomia. Esta versão de ciência continuaria postulando a existência do real, fora das palavras que o nomeiam, coisa inaceitável para Barthes (1986), pela impossibilidade de reapresentação da linguagem, pois a linguagem não reapresenta: produz uma realidade, lhe dá forma. Desde esta óptica, podemos afirmar que quando pesquisamos, ao nomear os fenômenos que tentamos estudar promovemos sua existência, termina muito ligada à ordem discursiva que rege nossa pesquisa, ao sistema de decisões e de posições assumidas como sujeitos acadêmicos e políticos.
Desde esta linha de argumentação e análise sobre a atividade investigativa, aberta em duas tradições e disciplinas diferentes, que encontrei muito coincidentes: Barthes (1986, 1987) em suas reflexões sobre a linguagem e o texto; e Ibáñez (1994), em sua epistemologia das ciências sociais para uma pesquisa de segunda ordem; é viável afirmar que, dado que a língua é uma classificação, aquilo que é nomeado por ela, o objeto pesquisado, é transformado em atenção ao sistema de conceitos e instrumentos dos que se faça uso. A esse sistema costuma-se chamar categorias, sistema conceitual, matriz de análise. Por isso, além das razões já assinaladas, não caberia postular a existência dos fatos pesquisados como externos à linguagem os nomeia e independentes dos instrumentos que lhe dão forma. Assim, os fatos, os fenômenos sociais, seriam, em grande medida, um efeito da linguagem desde o que se enuncia, produzem-se. Por isto, não nos soa estranho aceitar a idéia da realidade social como uma construção: palavras que constituem o título de uma já clássica e obrigada obra. Desde este particular enquadre teórico, a validade, defendida desde a relação entre a explicação do fato, garantida pelo controle dos instrumentos e procedimentos para reduzir o desvio, e o fato nomeado, seria um impossível epistemológico. Esta linha de discussão nos obriga, ou pelo menos nos autoriza, a procurar a legitimidade em outros terrenos, por exemplo, nas bordas de uma perspectiva discursiva, argumentativa.
Cabe assinalar que está linha de pensamento se relaciona, também, com os desenvolvimentos de Michel Foucault, em sua análise sobre a forma como se constituíram os objetos de estudo nas disciplinas científicas, pois nelas,
se existe unidade, o principio não é, pois, uma forma determinada de enunciados; não seria melhor o conjunto das regras que tem feito, simultânea e sucessivamente, possíveis descrições puramente perceptivas, senão também observações midiatizadas por instrumentos, protocolos de experiências de laboratórios, cálculos estatísticos, comprovações epidemiológicas ou demográficas, regulamentos institucionais, prescrições terapêuticas? (Foucault, 2007, p. 56).
Ou seja, as disciplinas científicas podem considerar-se como formacionais discursivas que se derivam da maneira como foram eleitos e organizados os enunciados em função da existência de certos instrumentos que ordenam tal discurso e que, a sua vez, dependem de conjunturas históricas. Portanto, e seguindo a Foucault, a suposta estabilidade de uma disciplina, de uma ciência, não obedece à estabilidade de um objeto de estudo, pois esse objeto é, em grande medida, produzido por esses instrumentos, por esses enunciados. De novo, essa suposta estabilidade da disciplina se rege, fundamentalmente, por uma ordem discursiva.
E então, desde onde postular a legitimidade de uma pesquisa?
Desde as idéias aqui expostas, a legitimidade de uma pesquisa poderia postular-se desde a arquitetura interna do sistema de conceitos, instrumentos e palavras que o pesquisador constrói para nomear, descrever ou explicar seu objeto ou fenômeno social do que se ocupa sua pesquisa, que não poderá ser tomado mais que como uma construção discursiva. Nesta perspectiva, ao pesquisador e pesquisa se lhes pedirá que sejam claros, que explicitem desde onde falam, que expliquem que operações realizaram para construir seu discurso, por que escolheram tais palavras, tais conceitos e não outros. Ou como diz Vasilachis (2007, p. 30), “o analista tem a obrigação de rever e expor seu próprio processo analítico e seus procedimentos, tão completa e verdadeiramente como lhe seja possível”.
Neste marco, o reconhecimento de uma pesquisa e de uma prática investigativa, poderia tomar o rumo de uma análise discursiva, textual, gramatical, se quiser. Se esse trabalho de análise do discurso que dá conta da pesquisa é rigoroso, assinalará pistas para o ajuste e eventual transformação da prática investigativa, pois as transformações que operam sobre a linguagem, sobre o sistema conceitual, podem assinalar transformações eventuais da experiência, desde que gerem indicações sobre seu funcionamento, seus limites, suas forças. Em síntese, a tarefa de decomposição e recomposição da linguagem empregada pelo pesquisador daria conta, não só da estrutura do discurso que se construiu, daria conta também de uma prática, neste caso investigativa, pois como dirá Barthes (1987), o texto é a grafia de uma prática. Dentro e nas bordas do texto respiram as decisões do pesquisador, inclusive no não dito pela escritura, bem como no estilo repousam os rastos de uma luta com as palavras, de novo, com os dados, que a sua vez são produzidos por esse modo de dizer. E de novo entramos ao eterno círculo de interpretações.
Além disso, cabe outra petição, outra pergunta, a alguma pesquisa que se postulasse como neutra, e ao pesquisador: quais são as operações e as condições por meio das quais o discurso tenta desprender-se do poder (Barthes, 1986); pois dizer, pelo menos no âmbito acadêmico e investigativo e dado o status social deste tipo de saber, é irremediavelmente exercer poder. Frente a isto, e desde outro lugar teórico, diríamos diretamente que quando abrimos a boca, tomamos posição (Anscrombe & Ducrot, 1983), afirmação que nos obriga a perguntas como: que tipo de poder tentamos exercer com nosso modo de dizer? Ou: que tipo de poder é exercido sobre nosso modo de dizer? Que tipo de poder fala por meio de nossa voz, de nosso texto, de nossa pesquisa?
Em conclusão, desde esta óptica, uma pesquisa não descreve nem reapresenta a realidade: a produz. Essa produção se gera na linguagem, pois a forma da realidade produzida depende do sistema de palavras que se escolham para esse falar. Falando produzimos uma realidade, e essa produção depende da eleição do sistema de palavras e das maneiras como elas se ponham em relação. Assim as coisas, e desde esta perspectiva, que não é mais que uma perspectiva, da mesma forma que na literatura, na prática investigativa criamos mundos, objetos simbólicos, pois desde o momento em que decidimos realizar a pesquisa, quando nos formulamos de maneira clara uma pergunta investigativa, abre-se um caminho. Desde ali, desde essas primeiras decisões, definimos que dados tomaremos, ainda realmente esses dados serão um efeito dessas primeiras decisões, pois estarão delimitados pelas palavras e instrumentos que elegemos. E quando descrevemos, quando fazemos observações sobre os fenômenos sociais, desde essas decisões, essas observações já se convertem em novos dados, sobre elas voltamos para construir a seguinte interpretação, e assim sucessivamente até o relatório, até o artigo. Depois retomamos a interpretação e continuamos na infinita e sucessiva semiose, pois se trata de uma produção na ordem simbólica, a partir de outra ordem simbólica (Ibáñez, 1998).
Note-se que por esta via, a legitimidade da pesquisa não é preciso postulá-la, unicamente, desde os métodos, as técnicas, as possibilidades de transferência do saber, o chamado impacto ou a objetividade dos resultados. Além disso, e para acrescentar outro ângulo para a análise desta problemática, que não desenvolveremos aqui, sabemos que a pesquisa que costumamos nomear como qualitativa está regida por uma ordem da diversidade: de métodos, de enfoques, de posições epistemológicas, de construções metodológicas. Por tanto, a redução do fenômeno investigativo a um problema relacionado, por exemplo, com a eleição de um método, como toda redução, é insustentável. Assim as coisas, de certo modo os resultados de um processo investigativo podemos vê-los como um subproduto do processo de construção discursiva. Por isto, a argumentação e a busca de consistência discursiva são elementos claves numa pesquisa social.
Ficam, por suposto, muitas perguntas: que diferenças podemos postular entre esse modo de falar que denominamos pesquisa e os outros modos de falar? Pois dado que se trata de um falar sério, acadêmico, suas condições de legitimação estarão dadas na ordem da explicitação dos lugares desde onde se fala. Ao pesquisador se pedirá que explique por que escolheu essas e não outras palavras, para desde ali falar: posições éticas e políticas; será-lhe pedido assinalar ao serviço de quem fala sua pesquisa. Enfim, a prestação de contas, para usar as palavras de hoje, não poderá ter um cenário diferente daquele da argumentação.
Esperamos que estes propostas contribuam à deliberação sobre a complexa tarefa que nos ocupa: pesquisas escrever. Esse é o sentido pretendido neste escrito: aportar a um potencial debate.
Referências
Anscombre, J. C. & Ducrot, O. (1983). La argumentación en la lengua. Madrid: Gredos.
Barthes, R. (1986). El placer del texto y lección inaugural. México: Siglo XXI.
Barhes, R. (1987). El susurro del lenguaje. Barcelona: Paidós.
Foucault, M. (2007). La arqueología del saber. México: Siglo XXI Editores.
Ibáñez, J. (1994). El regreso del sujeto. La investigación social de segundo orden. Madrid: Siglo XXI Editores.
Ibáñez, J. (1998). Nuevos avances en la investigación social: La investigación social de segundo orden. Barcelona: Anthropos Editorial.
Strauss, A. & Corbin, J. (2002). Bases de la investigación cualitativa. Técnicas y procedimientos para desarrollar la teoría fundamentada. Medellín: Editorial Universidad de Antioquia.
Vasilachis, I. (2007). Estrategias de investigación cualitativa. Barcelona: Gedisa.
Zuleta, E. (1994). Elogio a la dificultad y otros ensayos. Cali: Fundación Estanislao Zuleta. |