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A escritura do artigo: algumas reflexões de uma equipe editorial
Patricia Niño-Rodríguez, Mauricio Pérez-Abril, Esteban Campo-Flórez
Equipe editorial, magis, Revista Internacional de Pesquisa em Educação
Pontificia Universidad Javeriana, Bogotá, Colombia
articulosmagis@javeriana.edu.co
 

A seguir, apresentamos algumas reflexões e, ante tudo, algumas perguntas que provêm do trabalho editorial, ou seja, do exercício cotidiano de receber os textos que chegam a nossa revista, lê-los, considerar sua pertinência, enviá-los para avaliação de pares, analisar e confrontar os conceitos dos avaliadores, discutir nos comitês editoriais, tomar decisões relacionadas com a ênfase da revista, as temáticas que deseja privilegiar, etecetera. Estas reflexões emergem, porque acreditamos que uma revista, além de sua função de difusão do conhecimento derivado do trabalho de pesquisa, constitui, pelo menos em parte, um laboratório para pensar sobre as práticas de escritura acadêmica, analisá-las e refletir sobre as variáveis que as formam. Nesta perspectiva, como equipe editorial, temos começado a fazer-nos uma série de perguntas que iremos abordando de maneira formal e sistemática em números posteriores. Por agora, queremos só esboçar algumas.

Geralmente as revistas de caráter científico, incluída magis, em suas políticas editoriais privilegiam a publicação de artigos que descrevem os resultados e processos de pesquisa científica e tecnológica, cujo objetivo é comunicar à comunidade acadêmica de um campo temático específico os resultados de pesquisas, ideias e debates de uma maneira clara e concreta. Este tipo de artigo considera-se importante na medida em que permite colocar em circulação os progresso e desenvolvimentos conceituais, metodológicos e epistemológicos “de ponta” para ser conhecidos e debatidos na comunidade acadêmica respectiva. Essa função de socialização e discussão é uma clara contribuição das publicações científicas ao desenvolvimento do conhecimento.

A prática de escritura de textos científicos tem gerado uma tipologia textual própria na qual o artigo de pesquisa e o ensaio derivado de processos de pesquisa aparecem como formatos frequentes. Dada a importância destes tipos textuais na publicação acadêmica, é comum encontrar nas convocatórias das revistas, literatura e diretrizes que tentam guiar aos autores sobre sua adequada escritura. Por exemplo, para o caso do artigo, parece haver um consenso quanto à estrutura, ao identificar quatro partes chave: introdução, metodologia, resultados e discussão. Estas partes como estrutura, têm sido interiorizadas pelos pesquisadores. Entretanto, nos processos de avaliação dos artigos, chama a atenção que uma grande porcentagem de pares avaliadores dê sugestões para melhorar os manuscritos em torno ao escasso desenvolvimento que é feito da parte discussão dos resultados e de sua problemática. Em muitos casos, os avaliadores dizem que os autores são tímidos ao lançar hipóteses sobre os resultados encontrados, o que faz com que artigos bem escritos e sugestivos terminem parecendo relatórios descritivos de pesquisa e não entrem ao terreno da produção de novas construções conceituais ou interpretações do objeto estudado.

Como sabemos, uma pesquisa é reconhecida como valiosa por atributos internos relacionados com o processo investigativo, como a rigorosidade dos procedimentos, a claridade na escolha dos enfoques analíticos, os instrumentos e as técnicas de processamento dos dados e pela claridade na forma em que se apresentam os resultados. Além destes atributos próprios de qualquer pesquisa, o reconhecimento de seu valor relaciona-se, em grande medida, com a aceitação na comunidade de pares pesquisadores.

Em muitos casos, essa busca do reconhecimento está associada ao caráter “científico” da pesquisa. Sobre a escrita dos textos que descrevem uma pesquisa. Essa busca de cientificidade concretiza-se em uma adequada escritura dos procedimentos, enfoques e técnicas empregadas para realizar o processo investigativo. Esse componente é uma condição de uma pesquisa, na medida em que deve ficar claro de onde extraímos nossos resultados, que condições os possibilitam, que procedimentos os autorizam. Explicitar esses elementos é uma tarefa complexa que nem sempre se consegue, entre outras razões, porque dada a concisão do texto que o formato de artigo permite, é difícil perceber tudo o que os autores desejam. Mas um bom artigo, geralmente, consegue fazer com que esses componentes sejam percebidos, mesmo que seja de maneira resumida.

Dadas estas restrições de espaço para a escrita, em outros casos evidencia-se uma ausência na explicitação da postura epistemológica e das decisões relacionadas com a escolha do enfoque investigativo. Esta ausência gera a sensação de que a escolha de uma epistemologia particular e de um enfoque que suporta a pesquisa, são assuntos problemáticos. Sabemos que detrás da escolha dessas posturas, os pesquisadores refletiram e tomaram decisões de suma importância, pois não há epistemologias neutras nem técnicas transparentes. Sabemos que há vínculos estreitos entre os interesses científicos e ideológicos dos pesquisadores e as decisões epistemológicas e metodológicas, elementos que nem sempre se tematizam nos artigos.

Poderia aventurar-se dizer que situações como esta nem sempre estarão associadas à extensão do artigo, senão à intencionalidade comunicativa do pesquisador. Em múltiplas oportunidades, quem pesquisa deseja comunicar aquilo que, no seu parecer, possa dar segurança – ou talvez certeza sobre os resultados que está estudando no artigo, decisão legítima. Por esta via, omite aspectos que talvez possam contribuir com mais elementos para a compreensão, como os expressados ao começo deste parágrafo, e com certeza, destaca outros como os indicados sobre os aspectos metodológicos.

Por último, outro elemento que é sugerido nas observações que realizam nossos avaliadores é que a busca de reconhecimento esta está marcada pelo status de ciência que o pesquisador ou a equipe de pesquisa lhe outorgam ao seu exercício investigativo. A maneira de escrever nossos textos não se desprende dessa complexa tensão, ou seja, no processo de escrita de nossos artigos, não podemos desprender-nos da representação de ciência e de cientificidade desde a qual pesquisamos. Aos textos parecem segui-los preguntas como: Que características o texto deve ter para ser considerado científico? Essa cientificidade, em ocasiões, a julgar pelas observações dos pares avaliadores, parece buscar-se na impecável descrição dos procedimentos e técnicas de análise.

Mas, no parecer dos pares avaliadores, em alguns casos, esse bom desenvolvimento descritivo não dá chance às apostas interpretativas, com os limites explicativos dos resultados e com sua projeção. Em alguns casos, a voz do sujeito que pesquisa parece ficar oculta detrás dos procedimentos e técnicas de pesquisa. Perguntamo-nos então sobre o lugar do sujeito que investiga no texto que apresenta. É provável também que, no seu imaginário, acredite que quem realiza pesquisas dá aos dados, à informação descoberta e a descrição realizada um valor importante. Durante muito tempo, a pesquisa efetivamente descansou sobre a pretensão de “objetividade”, entendida esta como a possibilidade de certa correspondência entre o fenômeno e o dito sobre ele. Esta busca faz com que em ocasiões force-se uma correspondência entre a enunciação e o dado, fato que pode levar a que na hora de apresentar as informações trate-se de esgotar o discurso na descrição, pois no final das contas, pode-se estar em terreno aparentemente mais seguro ao demostrar a existência do real, que ao realizar inferências a partir dos limites interpretativos, nos quais as posturas, os enfoques e as perspectivas jogam um papel importante e fazem da “realidade” produzida na pesquisa um fenómeno nem sempre idêntico ao “real”.

Como podemos notar, as preguntas que derivam destas reflexões são mais numerosas que as certezas. Tal preocupação seguirá sendo tema de reflexão da equipe editorial de magis e esperamos abordá-la de maneira formal nos próximos números.

Numero 3
Julho- Dezembro 2009
ISSN On-line edition
2027-1182
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